A Hipocrisia das Editoras: Quando a IA Deixa de Ser Inimiga e Vira Ferramenta de Controlo
O problema nunca foi a inteligência artificial. O problema sempre foram as grandes editoras que, historicamente, nunca se preocuparam com o artista, com o humano ou com a arte, apenas com o lucro.

Agora, os mesmos executivos que incentivaram artistas a assinar cartas abertas contra o "uso predatório da IA" em 2024 estão a fechar acordos milionários com essas mesmas plataformas, preparando-se para impor a tecnologia aos seus catálogos em 2025.
A mudança de discurso é brutal e reveladora: artistas que criticavam publicamente a IA por pressão das editoras em breve serão obrigados a usá-la, não por escolha criativa, mas porque o contrato assim determina. Esta inversão expõe a verdadeira natureza da indústria musical tradicional e o perigo que representa quando detém uma ferramenta tão poderosa.
O Controlo Silencioso dos Contratos
As grandes editoras já começaram a recusar cláusulas contratuais que impeçam o uso de obras de artistas para treinar modelos de IA. Escritores e músicos que tentam proteger-se legalmente são informados de que qualquer insistência nessa proteção resultará no cancelamento da oferta de publicação. Com apenas cinco grandes editoras dominando o mercado, os criadores perdem completamente a força de negociação.
Esta dinâmica revela uma estratégia clara: as editoras querem liberdade total para clonar, replicar e manipular o trabalho dos seus artistas contratados sem necessidade de nova autorização ou pagamento adicional. A IA torna-se assim uma ferramenta de exploração em escala industrial, permitindo que as majors gerem variações infinitas de um catálogo já pago, eliminando a necessidade de contratar novos talentos ou remunerar criadores reais.
Substituição do Catálogo de Baixo Rendimento
A estratégia é economicamente brutal: por que manter artistas de médio alcance quando se pode clonar as características sonoras dos sucessos e gerar milhares de faixas derivadas a custo zero? Estudos da Confederação Internacional de Autores e Compositores (CISAC) estimam que músicos estão em risco de perder 24% da sua receita até 2028 devido à IA, enquanto as empresas continuam a aumentar os lucros.
As plataformas de streaming já reportam que 18% das faixas novas lançadas em 2025 foram feitas com IA. Estas músicas artificiais ocupam espaços nos algoritmos de recomendação, reduzindo a visibilidade de artistas humanos e criando um "sangramento contínuo" do fundo de royalties. O dinheiro que deveria remunerar criadores reais passa a financiar conteúdo gerado por máquinas controladas pelas próprias editoras.
Artistas independentes já descobrem músicas falsas geradas por IA nos seus próprios perfis nas plataformas, com clones treinados nos seus álbuns anteriores imitando instrumentação, letras e até vozes. Uma cantora folk reportou que ficou "chocada e perturbada" ao descobrir que ouvintes gostavam mais do álbum falso gerado por IA do que do seu trabalho real. Mais de 24.000 pessoas assinaram petições exigindo que plataformas reforcem a segurança, incluindo artistas como Anderson .Paak e Willow Smith.
Artistas Sem Poder de Questionar
Artistas ligados às editoras seguem as ordens corporativas sem questionar, presos em contratos leoninos que transferem todos os direitos para a empresa. Quando as editoras diziam que a IA era uma ameaça, os artistas repetiram esse discurso publicamente, assinando cartas abertas que falavam de "roubo de vozes" e "degradação da criatividade humana". Agora que as mesmas editoras fecharam acordos com Suno, Udio e outras plataformas, esses artistas terão de aceitar ter as suas vozes clonadas e os seus estilos replicados, porque o contrato permite.
A hipocrisia é total: as editoras processaram startups de IA por "exploração numa escala quase inimaginável" e "roubo maciço" em 2024. Menos de um ano depois, a Warner Music anuncia parceria com a Suno afirmando que "a IA torna-se pró-artista quando adere a modelos licenciados". A diferença? Agora são elas que controlam os lucros.
O Verdadeiro Inimigo Nunca Foi a IA
A tecnologia de IA musical pode ser democratizante, acessível e criativa quando nas mãos de artistas independentes. O problema surge quando corporações que historicamente exploraram criadores ganham uma ferramenta que lhes permite substituir completamente o trabalho humano sem alterar as estruturas de poder.
Para a 2 Lados e o ecossistema de artistas independentes, a lição é clara: a IA não é o inimigo, as estruturas de controlo concentrado sempre foram. Enquanto as majors negociam em segredo cláusulas que permitirão clonar e substituir os seus próprios artistas, plataformas verdadeiramente independentes devem garantir transparência total, controlo criativo nas mãos dos criadores e modelos económicos que não dependam da exploração sistemática do trabalho humano.
A pergunta que fica: quando os artistas que criticavam a IA começarem a ser substituídos pelos seus próprios clones digitais, para onde irão reclamar? Certamente não para as editoras que assinaram os acordos.
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